terça-feira, 1 de dezembro de 2009

há presente



Há presente.
Há braços.
Há fogo.
Há carne.
Há marcha.
Há prosa.
Há surto.
Formiga bem debaixo do meu queixo a nítida sensação de que há.
presente, presente, presente.
há.
há luta.
o suor atrai porque tem cheiro de amora.
puro disfarce.
convite.
acinte.
teu olho.
meu olho.
há fantasia.
não há luta sem sonho.
no meu não falta alimento.
nem só de alma vive o poeta.
há carne em abundância convidando para a luta.
há delírio.
há prazer.
na luta.
do presente.

Há dias de chumbo
Há dias de glória.
E o suor tem cheiro de amora.
Amora importada que a gente economiza porque é cara.

caras são as palavras.
caro é o meu amor.
amor na luta,
no chumbo,
delírio,
desvio,
à crise há letras.
há metáfora.
há cândida devassa
deliciosamente dialética.
meu olho.teu olho.
há presente.
dentro de mim.


e há a madrugada que antecede um dia de cão.

2/12/09 às 04:38 a.m.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

DIVERSA




"Tem que saber que eu quero é correr mundo, correr perigo"

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

AÇÃO




O uso das diferentes estruturas gramaticais levam a diferentes significados.Na técnica de resultados, o falante é levado a perceber isso, sem que o digam diretamente.
Porém,as formas de dizer acompanham a forma social das inter-relações que são essencialmente mutáveis.
Por isso, a semântica que acompanha a compreensão é diferente em cada indivíduo e pode advir de diversos estímulos.
Minha semântica diz: "sim sou muito legal e tô te dando mole".[perceba que considero a oblíqua (machadiana mesmo)utilização de um vocativo peculiar no discurso um mole considerável]e reconheço, claro, a capacidade intelectual do interlocutor de perceber que isso é um mole bem dado.

Ai, esse contexto.

clichês são por vezes indispensáveis.

AÇÃO!




20/11/09 às 03:42 a.m.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

SULIAN




SULIAN

A veia sobressaía em todo o longo caminho translúcido, pulsando soberana, que aos dedos calejados e finos acenavam imperiosas pelo toque.Envoltos pelo ameno frio ainda sem neve de abril,não era como em Kosovo que o frio corroia os ossos e o que havia dentro deles,a veia guardava a hemorragia dos amantes que por sua vez diluía o eco de uma história,de umas almas,de outras tantas notas,pulsando naquela pele de soneto.Seu desejo em meus ouvidos assim, em vapores de volúpia, o torpor profundo que aqueles dedos causavam não me deixavam dúvidas da conexão ancestral que sempre nos uniu.A convicção de que o depois daquele instante era morte me fazia subvertê-lo ainda mais.Éramos o desvio, o páthos na utopia daquele instante.Jamais saberiam o inteiro teor dessa relação, a marca de seus dedos fossilizada em minha carne guardada até o último dos meus fôlegos, latejava por esse instante que jamais poderia supor que ocorreria novamente nessa vida.As notas que me acompanharam desde sua partida, povoavam a atmosfera forjando sua presença etérea em devaneios abissais.E dessa forma, ia rastejando pela existência mas por medo de parar do que por vontade própria,sem saber se a morte o havia surrupiado de mim.Em Prístina,nossa gente cada vez mais era cercada e torturada, e você tido como morto.Os malditos bradaram sua morte como vitória dos imundos.Desterrada como alma que paira sem sentido, percorri as prisões e hospitais,nossos irmãos contactaram as fontes, mas só acharam pedaços de suas roupas e essa partitura com suas notas.Elas eram a única coisa que alimentava meu espírito de libertação.E eu as repetia compulsivamente ao piano,isolada, descarnada.Não podia mais freqüentar a escola de música,era perigoso para mim.Meu delírio me compelia a tocar, convulsionando-me para que assim ao menos a ilusão de sua presença voltasse a me visitar.Não havia mais dias, nem noites,o tempo foi suspenso para que eu somente tocasse e convivesse nessa dimensão paralela entre nós.Além de qualquer entendimento racional, eu compunha minha ópera que era a nossa transmutação.Até que aquela notícia reteve-me ao mundo real e a constatação de que era você o suposto pianista mudo provocou em mim uma sensação que ultrapassa o sentido humano de percepção, o engasgo de vida recobrou minhas cores e minha vivacidade.Sem pestanejar, fui ao seu encontro.São poucos que podem sentir esse sopro.À viagem no barco clandestino eu me apegava à ópera que havia composto em nosso nome, tinha a impressão que meu espírito ansiava por esse reencontro desde o início das eras.No momento em que te revi na hospital, emudecido e tocando, um pouco mais corado, todo o resto do trajeto se olvidou da memória.Seus olhos inquietos , de grandes cílios me acenando como em código de silêncio foram o bastante para entender todo o resto.Eles jamais saberiam, e o único sopro de vida latejava nesse momento, o depois é farsa e morte.


ISA ALVES 9/11 às 8:10 a.m.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

DESCORTINA




..Que canto há de cantar o que perdura?A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:O que tu pensas gozo é tão finito.
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível
E o que eu desejo é luz e imaterial.

Que canto há de cantar o indefinível?O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?

-----Hilda Hilst-----



Descortina pois o que eu desejo é luz e imaterial.
Descortina e perdura pois o que penso e sinto amor é muito mais.
Descortina e não define o que nasceu para não se limitar
Descortina e não toca porque a carne é perecível e eu quero a alma,amor, entrelaçada dos indescritíveis
Descortina o gozo infinito da palavra personificada
Descortina o sussuro do inconfessável
Descortina o deleite de amante etérea
Descortina a vertigem da presença inebriante
Descortina o profano.
Descortina o não.
Silencia o pecado.
Silencia, pois o gozo da palavra personificada é infinito.
Ardor de amante etérea.
Descortina e exorciza.
Descortina e transmuta.
Descortina e desmembra cada beco do sonho.
Suga-me na alma, arquejando sôfrega sem nunca ser tocada.
Amor inolvidável dos indescritíveis.

Descortina e perdura.


Descortina e seduz.

Aysha San 12/11/09 às 04:03 a.m.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

H E M O R R A G I A


" ..e é inútil procurar encurtar caminho e querer começar já sabendo que a voz diz pouco, já começando por ser impessoal. Pois existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes."

Clarice.

eu e elas.
e o nosso futuro.

"Nenhuma tinha pernas tão densas e raciocínio tão DEBOCHADO como ela."


H E M O R R A G I A

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

PUTAS PÚRPURAS. SEM NOME


Chico mulato, chapéu enviesado, carapinha lustrosa entornando o batuque do boteco das ladeiras da Lapa
Em meio ao fuzuê malemolente do baile funk das bundas mestiças, vadias, rainhas.

Bamba boêmia solene seguida de café e 'parati' embebedando o choro histérico dos crus.
Nus.
Descalços.
Percalços.
Sambando a opulência devassa
Dos que não têm vergonha nem nunca terão,
Dos que não têm censura nem nunca terão

Subvertendo surdamente a sintaxe dos desvalidos.
Delirantes como são os orgasmos dos que não se fantasiam...

MERETRIZES, celebrando por serem
As PUTAS.

PÚRPURAS gozando do gozo
Da Pudica
Desfaçatez das ladies.

De suas vulvas volúveis ecoam
Os segredos das luvas sedosas
Das Madames de renome.


Putas purpúras de vulvas volúveis.
Sem nome.
Delas são todos os homens
Das Madames de renome.

Deleitantes dos delírios desvairados
Damas da 'imundiça' intumescendo os seus que repousam
Frouxos,

Murchos,

Fartos,

Mortos de cansaço,


Nas vulvas volúveis das putas púrpuras sem nome.

3/09/09 às 04:35 a.m.